sábado, 16 de janeiro de 2010

Intelectualizar deixa o ser humano insensível?

Por Sidney Crivelari

Ha dias não ligo a televisão. Acompanho diariamente as ultimas notícias nos sites e blogues dos jornais. A minha rotina diária é procurar e selecionar notícias interessantes, curiosas e importantes. Feito isto, indico aos meus seguidores no Twitter e publico o resumo de notícias no meu blogue.
Li sobre as enchentes, sobre o desabamento em Angra, sobre e a recente catástrofe do terremoto no Haiti, vi as diversas fotos disponíveis na internet, mas ontem (16) ocorreu algo diferente.

Ao ligar a TV para procurar um filme e relaxar, parei no canal da Globo News no exato momento em que encontraram no Haiti, uma enfermeira que estava viva sobre os escombros. Ao ver as imagens do soldado se comunicando através de um buraco no chão, a alegria de ter encontrado um corpo com vida, e logo depois as imagens mostrando apenas o rosto dela desobstruído sob os escombros, veio-me toda emoção contida. Emoção de todos os desastres, vindos de uma única vez, como se sofresse uma catarse. Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama.
Fiquei emocionado, aflito e ao mesmo tempo feliz pela sorte daquela moça desconhecida. Depois, vi as imagens de pessoas brigando para receber um pouco de água e alimentos, e várias cenas sobre a destruição e o sofrimento. Uma agonia e uma enorme tristeza abateram-se sobre mim.
Questionei-me sobre qual a contribuição que faço para tornar o mundo melhor? O que realmente é importante na minha vida? Sempre me questionando, sempre me cobrando, este sou eu, o coach, na busca do aperfeiçoamento contínuo.
Refleti sobre o poder das imagens em movimento, das reportagens televisivas, de como ela nos sensibilizam, despertando em nós todos o instinto de solidariedade.
A notícia escrita, me parece bem diferente, é fria, é o conhecimento intelectual, a verificação de fatos, isenta de emoções.
Nos ensinam que a razão não pode se basear em sentimentos, analisar antes de sentir, para que o raciocínio não seja prejudicado.
Até nos filmes de mafiosos, os poderosos racionalizam, Michael Corleone em 'O Poderoso Chefão 3' diz "Nunca odeie seus inimigos. Isso afeta o seu julgamento".
A intelectualização deixa o ser humano insensível ou é a banalização da violência, do prazer, da corrupção e das catástrofes, tanto vistas nos filmes e seriados de TV?
Lembro-me de um episódio que passei há alguns anos, não me lembro em que ano foi, assistindo ao jornal, apareceu ao vivo uma execução de um traficante (em um destes países de totalidade muçulmana), seu algoz jogou gasolina e ateou fogo, tudo ao vivo na frente das câmeras. Olhei e imediatamente percebi o que minha mente silenciosa murmurou: Menos um, vai tarde!
Horrorizei-me com o pensamento frio, insensível e desumano. Fiquei chocado e estarrecido com a tamanha crueldade, saída espontaneamente, sem nenhum constrangimento de dentro do meu ser.
Não acreditei e perplexo me vi horrorizado comigo e não com ato que acabara de assistir na TV. Meu Deus, como chegamos a este estado? Sei que não sou o único a ter tido tais pensamentos, não sou o primeiro e não serei o ultimo. Estamos banalizando o valor da vida humana, analisando de forma fria, usando a lógica da lei de talião, do olho por olho, dente por dente.
Será que estamos regredindo socialmente, ou a intelectualização esta nos fazendo seres insensíveis? Será que este veículo nefasto a televisão, este gerador de emoções falsificadas, vai continuar a nos acostumar com o caos, com a desordem, gerando aos poucos seres alienados, cruéis, insensíveis e acima de tudo seres manipulados?
A triste realidade é que a TV é um meio de comunicação de massa, que nas mãos habilidosas, consegue manipular, iludir e fanatizar.
Este é o inimigo silencioso, acolhido como amigo intimo dentro de nossos lares.
Pense Nisso!
Abraços

Foto: Daniel Morel/AFP

10 comentários:

  1. Acredito que a mídia pode banalizar fatos que poderia nos chocar ou nos deixar estarrecidos, entendo a sua colocação mas não concordo com o fato de que a intelectualização venha a ser o fator que esteja provocando tal indiferença na "massa telespectadora", tornar o indivíduo intelectual gera neste mesmo noçao de entendimento, compreensão, cultura e busca da razão. Não sei se entendi bem o que vc escreveu, mas acho q a palavra certa para o q vc chama de "intelectualizar" seria "influênciar" ou seja "ação que a mídia exerce sobre a massa".

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  2. Querido anônimo, em nenhum momento disse ou dei a entender que a intelectualização provoque a indiferença na massa telespectadora, e sim que a televisão assim o faz.
    Vou citar como exemplo um caso em que normalmente a intelectualização nos deixaria insensível:
    - O assassinato de um traficante com antecedentes criminais extensos, autor de crimes hediondos, além de vários assassinatos, históricos de violências, etc...
    Se você recebe a notícia do assassinato, não sendo ele pessoa conhecida e de seu ciclo de amizades, tendo todas as informações sobre os crimes por ele cometidos, dificilmente você se sensibilizaria ou sentira a dor pela perda deste ser humano. Por isso escrevi que estamos banalizando o valor da vida humana, analisando de forma fria, usando a lógica da lei de talião, do olho por olho, dente por dente. Este é um dos questionamentos, se a intelectualização esta nos fazendo seres insensíveis?
    Obrigado pela visita e pelo comentário
    Abraços

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  3. O domínio da comunicação é uma arma que pode construir ou destruir dependendo de quem a controla.

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  4. Concordo plenamente com você Erick, mas a questão é que isto não esta acontecendo. E ninguém esta fazendo nada.
    Abraços

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  5. Oi Sidney,

    Acho que a notícia escrita parece mais fria porque ela deve ser impessoal, telegráfica. É apenas a informação, o fato descrito tecnicamente, a linguagem jornalística. Ela é diferente dos colunistas ou dos blogs, que têm um cunho mais pessoal e por isso os sentimentos são permitidos.

    bjs

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  6. Concordo com você Leila Franca, apesar de que muitos jornalistas ultrapassam a barreiro do impessoal, do neutro, de se ater aos fatos.
    Obrigado pela visita e pelo comentário.
    Abraços

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  7. O que me questiono é se algum dia a humanidade, ou desumanidade, foi diferente disso... Não sei bem o que me respondo, mesmo pq, minhas respostas são -quase sempre - múltiplas.
    Também me pergunto, face à manipulação da mídia, como seria o mundo se as notícias selecionadas fossem outras?
    Na década de 80 participei, por um tempo, de um grupo de auto-gestão (estudos sobre o anarquismo enqto sistema político) com Roberto Freire, até que discordássemos frontalmente sobre alguns pontos que agora não interessam; whatever, devíamos observar as pessoas tentando relacionar o comportamento às notícias veiculadas nos jornais do dia, esta é a parte que me interessa, pq desde lá, e são muito anos, faço-me a mesma pergunta qto às notícias escolhidas e nossas ações e reações na vida.
    Abraços de brisas perfumadas,
    Joyce Mobley

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  8. Oi Joyce, fico feliz com sua visita.
    Os seus questionamentos me levaram a uma profunda reflexão, como também, a um profundo impasse. A partir de qual referencial eu deveria analisar cada item a ser respondido? Dependo do que eu escolha, terei múltiplas respostas para a mesma pergunta. Acredito que seja por isso, que haja tantas controvérsias entre sociólogos, filósofos, psicólogos, etc. A maioria sempre defende o referencial que escolheu, considerando-o como o único correto. Será que é isto?
    Quanto ao seu questionamento sobre a humanidade e a desumanidade, considero uma boa pergunta, mas falta saber, em relação a que? Se formos comparar sobre a barbaridade e a violência, acredito que hoje sejam muito menores do que no passado, levando-se em conta, as mesmas proporções. O único problema ao se tentar responder a está questão, é a falta de um referencial como ponto de partida.
    Não podemos negar que as notícias veiculadas nos jornais mudam os comportamentos das pessoas, do mercado financeiro, podem apavorar, causar comoção.
    Acho importante as análises destas questões sobre a mídia. Fico muito feliz que tenha escolhido compartilhar seus pensamentos, questionamentos e anseios aqui.
    Obrigado pela visita e um grande abraço.
    Sidney Crivelari

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  9. Oi Crive!
    Quem amarrou vc nessa camisa, amore?
    Precisa de uma ajuda?
    Abraço de brisas perfumadas and thanks pela gargalhada que sua versão enlouquecido na camisa arrancou de mim!
    Joyce Mobley

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  10. Oi Joyce, para você ver, de tanto ler as notícias deste mundo doido e de perceber que a moral, a família, a honestidade e a honra do ser humano está se desintegrando...a gente acaba entrando nessa camisa aí ó....
    he he he
    Abraços e obrigado pela visitinha.
    Beijos

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